Era terça-feira de sol, ela como de costume acordou cedo, olhou entre as cortinas e se assustou com o clarão que estava lá fora, achava que estava chovendo, ou sonhou com isso, não sabia ao certo. Queria que estivesse chovendo, queria dormir mais, seria um motivo. Precisava de uma desculpa, pois estava sem vontade de grandes realizações.
Abriu as cortinas, em seguida a janela, que habitava, em uma pequena soleira, grandes flores amarelas. Os pássaros cantavam e ela ainda não havia sorrido. Dirigiu-se ao lavabo, abriu a torneira e lavou o rosto o que fez com que despertasse, mesmo assim, não havia alegria.
Pensou que o dia estava lindo, que os pássaros cantavam, mas que não significava nada. Mas como de costume, entrou em contradição e decidiu que precisava fazer algo, desta vez para si mesma. Olhou novamente para a face que refletia no espelho e resolveu sorrir a ele. Sua boca era carnuda, não muito grande, seus dentes eram bonitos. Tinha sardinhas leves no rosto claro e um pouco pálido, com marcas que registravam a idade acima dos 30, mesmo assim, sentia-se ainda uma menina. Uma menina que naquela manhã estava querendo virar mulher. Olhou novamente ao espelho e falou em pensamentos que queria ser diferente e que aquele dia seria o dia de começar a mudar.
Tomou seu café, como a nutricionista havia lhe receitado, já que estava acima do peso que desejava. Concluiu que não era jovem o suficiente para cometer erros e desperdícios à saúde. Naquele momento ela já havia notado que a mudança estava começando e que só precisava de um primeiro passo. Voltou ao banheiro tomou um banho e decidiu dar um passo a mais, simples, mas que talvez a motivasse a um terceiro, quarto, quinto passos. E quem sabe boas coisas lhe aconteceriam.
Tinha tempo naquela manhã e resolveu sair. Cortou o cabelo. Uma ação cotidiana a qualquer mulher, mas que para ela não e notou que a simples decisão trouxe um novo olhar, um toque a mais àquele que já era firme e decidido e que no fundo, também, carregava medo, angústias, sofrimentos, misturados a sonhos, desejos e esperanças. Sentiu-se feliz, sorriu de novo.
Voltou para casa. Como mais cedo, sabia que não faria grandes realizações, mas que estava disposta, dali em diante, a traçar novas metas. A transformar sua própria vida, a trazer mais sentido e a cada manhã, mesmo que com chuva, seria feliz, com as suas alegrias, com as angústias, com os medos, mas acima de tudo com a capacidade de sonhar e seguir em frente, acreditando que todo o dia há motivos para estampar um grande sorriso.